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Em bom português: a onda dos treinadores lusitanos no futebol brasileiro

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Em bom português: a onda dos treinadores lusitanos no futebol brasileiro


Vitor Pereira, Corinthians
Principais títulos: ligas de Portugal (2), Grécia e China

“A vinda de estrangeiros é uma oportunidade de conhecer coisas novas. Eu também tenho muito a aprender aqui.”

Entre uma e outra referência a seu compatriota, o Nobel de Literatura José Saramago (1922-2010), o técnico Abel Ferreira destrinchou em seu recém-lançado livro, Cabeça Fria, Coração Quente (Garoa Livros), alguns dos segredos que o levaram ao bicampeonato da Libertadores pelo Palmeiras. Tudo passa pelos detalhes — ou pormenores, como costumam dizer pelos lados de Lisboa —, a exemplo dos slides com recomendações táticas aos atletas, os pedidos especiais às cozinheiras ou ainda a alteração na forma de irrigar o gramado do Allianz Parque. Abel já entrou para os anais do futebol brasileiro, seguindo os passos de Jorge Jesus, o Mister, eternizado na Gávea como comandante do histórico Flamengo de 2019. Desde então, grandes equipes vêm seguindo a receita lusitana. O próprio rubro-negro e o Corinthians investiram alto em portugueses para 2022 e o Botafogo, recém-comprado por um milionário americano, deve fazer o mesmo.

A redescoberta do Brasil, no entanto, leva a uma desagradável constatação: mesmo custando muito mais — as comissões de Paulo Sousa no Flamengo e Vitor Pereira no Corinthians receberão cerca de 1,5 milhão de reais mensais —, os profissionais do além-­mar têm sido preferidos aos brasileiros. Medalhões como Vanderlei Luxemburgo são tidos como ultrapassados, enquanto a safra de jovens, como Fernando Diniz, não deslancha. O Brasil não tem representantes de peso no futebol europeu, ao contrário do que ocorre com os vizinhos argentinos e com os próprios portugueses. Nem sempre foi assim, contudo.

Abel Ferreira, Palmeiras –Michael Regan/FIFA/Getty Images

Abel Ferreira, Palmeiras
Títulos: Libertadores (2), Copa do Brasil e Recopa

“Não há milagres. Sou pago para tomar decisões difíceis. Sempre sigo o meu plano, aconteça o que acontecer.”

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Se hoje é o Brasil que importa conhecimento de nossos colonizadores, a mão contrária já foi realidade. O carioca Otto Glória, em 1966, e o gaúcho Luiz Felipe Scolari, em 2006, guiaram Portugal às semifinais da Copa, suas melhores campanhas. Abel Braga, de volta ao Fluminense aos 69 anos, também é bastante respeitado por lá. No entanto, os gajos não se limitaram a beber de nossa fonte. No fim da década de 70, Jesualdo Ferreira, de passagem curta pelo Santos em 2020, foi um dos criadores do Gabinete de Metodologia do Treino de Futebol de uma universidade. Carlos Queiroz e Vitor Frade são outros reconhecidos acadêmicos da bola.

Nos anos 2000, a federação europeia (Uefa) passou a exigir a realização de cursos, e o conteúdo da Federação Portuguesa de Futebol (FPF) tornou-se referência. Custa cerca de 4 000 euros e pode ser feito em onze cidades — o da CBF, que pode chegar a 40 000 reais, só é ministrado no Rio. “Tivemos de mudar paradigmas do jogo, ele é estratégico e tático, como a guerra”, disse a VEJA Jorge Castelo, de 65 anos, professor da FPF, mentor de Paulo Sousa e Vitor Pereira. “A palavra é especificidade. Temos de treinar em função da partida. Trabalhei com técnicos brasileiros que separavam os trabalhos físico, técnico e tático. Não é assim. O instrumento fundamental do treino é a bola.”

Jorge Jesus, Ex-Flamengo –Wagner Meier/Getty Images

Jorge Jesus, Ex-Flamengo
Títulos: Brasileirão, Libertadores, Recopa, Supercopa do Brasil e Carioca

“Como o jogador, o treinador tem de ser criativo. Sempre propus novidades.”

Incomoda os portugueses a prepotência de alguns brasileiros. “O fato de ser pentacampeão do mundo e produzir craques fez com que muitos brasileiros pensassem que não tinham mais nada a aprender”, diz Pedro Bouças, de 42 anos, ex-auxiliar de Jesualdo Ferreira no Santos. Uma frase do técnico Renato Portaluppi é sempre lembrada como referência dessa empáfia. “Quem precisa aprender estuda, vai à Europa. Quem não precisa vai à praia”, disse o gaúcho, hoje desempregado. “No Brasil, torcedores e jornalistas também atrapalham, pois valorizam demais o atleta talentoso, mesmo que no plano tático ele prejudique o time. Hoje é impossível triunfar sem jogar bem sem a bola”, diz Bouças.

Vitor Pereira vem deixando boa impressão no Corinthians, apesar de ter perdido em sua estreia para o São Paulo de Rogério Ceni. O ídolo tricolor, aliás, ironizou o excesso de estrangeiros. “Temos ótimos treinadores, mas o mercado é livre para ir e vir. Infelizmente, será necessária essa onda até que o fracasso exista e se volte a pensar nos treinadores do Brasil.” Ceni tem certa razão, mas o melhor caminho passa não por torcer contra os importados, mas pelo surgimento de mais técnicos jovens e, sobretudo, estudiosos nos gramados brasileiros.

Publicado em VEJA de 23 de março de 2022, edição nº 2781

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